A Menina Submersa: Memórias - Caitlín R. Kiernan


Título: A Menina Submersa
Autora: Caitlín R. Kiernan
Editora: DarkSide Books
Número de Páginas: 320
ISBN: 978-85-66636-53-6
Nota: 3/5

A Menina Submersa é um verdadeiro conto de fadas, uma história de fantasmas habitada por licantropos e sereias. Mas antes de tudo uma grande história de amor construída como um quebra-cabeça pós-moderno, uma viagem através do labirinto de uma crescente doença mental. Um romance repleto de beleza e horror, camadas, mitos e mistério em um fluxo de arquétipos que desafiam a primazia do "real" sobre o "verdadeiro" e resultam em uma das mais poderosas fantasias dark dos últimos anos. Considerado uma obra-prima do terror da nova geração, o romance é repleto de elementos de realismo mágico e foi indicado a mais de cinco prêmios de literatura fantástica, e vencedor do importante Bram Stoker Awards (2013). A autora se aproxima de grandes nomes como Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, que enxergaram o terror em um universo simples e trivial - na rua ao lado ou nas plácidas águas escuras do rio que passa perto de casa -, e sabem que o medo real nos habita. O romance evoca também as obras de Lewis Carrol, Emily Dickinson e a Ofélia, de Hamlet, clássica peça de Shakespeare, além de referências diretas a artistas mulheres que deram um fim trágico à sua existência, como a escritora Virginia Woolf.

 De longe esse livro foi uma das maiores experiências literárias que já tive. Se você é daquelas pessoas que gostam de ler um livro em uma sentada só, devo dizer que este livro não é o caso. A sua narrativa deve ser assimilada aos poucos.
Vem ler o restante da resenha que você vai entender o motivo.


 "[...] Nenhuma história tem começo e nenhuma história tem fim. Começos e fins podem ser entendidos como algo que serve a algum propósito, a uma intenção momentânea e provisória, mas são, em sua fundamental, arbitrários e existem apenas como uma ideia conveniente na mente humana. As vidas são confusas e, quando começamos a relacioná-las, ou relacionar partes delas, não podemos mais discernir os momentos precisos e objetivos quando certo evento começou. Todos os começos são arbitrários." Pág. 17/18


India Morgan Phelps (Imp) está a faixa de seus vinte e poucos anos, mora sozinha e se mantém com um emprego em uma loja. A olhos nus, ela é apenas mais uma mulher com uma vida monótma, mas conforme avançamos com a leitura percebemos que a vida de Imp, vai muito além disso.
"[...] Você poderia querer se lembrar, um dia. Quando alguma coisa deixa uma forte impressão em nós, deveríamos fazer o nosso melhor para não esquecer. Por isso, anotar é uma boa ideia." Pág. 116
Imp, assim como sua avó e mãe, ela sofre de uma doença genética da família, a esquizofrênia. (Se você não conhece o que é a doença, acesse este link, que te dá uma base ;). Ambas, mãe e avó se suicidaram e Imp apesar de estar sob tratamento médico, ela sente que está tendo uma recaída, e teme que o seu futuro seja como o de suas sucessoras.
Desde o início da narrativa, nos deparamos com Imp, escrevendo uma história de fantasmas, lobisomens e sereias. Mas estes fantasmas nada mais são que a sua doença, sua mãe, sua avó, sua namorada Abalyn e Eva Canning. Ela conhece sua namorada Abalyn, de uma maneira inusitada. Em um dia caminhando pelas ruas nota no meio fio que algumas coisas estão jogadas na calçada como ela achou que eram para descarte, ela se aproxima e examina, porque ela adora colecionar coisas antigas e achadas na rua. Mas acontece que as coisas não estavam sendo jogadas fora, eram as coisas de Abalyn, que fora expulsa da casa da namorada. O motivo da separação era que Abalyn não tinha um emprego com uma renda fixa, ela era gamer. Fazia os testes dos jogos e publicava artigos a respeito deles. Outro motivo era que ela é uma transexual. Então, Imp tocada com a situação a leva para sua casa, e se tornando mais próximas elas acabam assumindo um relacionamento. Apesar das diferenças gritantes que elas tenham, elas independentemente, sempre se apoiam.
"[...] O que eu quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você foi paciente e incrivelmente boa comigo. Quero dizer que ... todos sabem disso. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Todas as coisas me deixaram, menos a certeza de sua bondade..." Pág. 15
Mas as coisas começam a se complicar para Imp, quando em uma noite andando de carro pela auto estrada, em uma noite fria e a altas horas da noite, se depara com uma mulher nua parada na beira da rodovia,  a qual mais tarde ela descobre em se tratar de Eva Canning. Ela é uma mulher misteriosa, que não sabe o que estava fazendo naquele local, e nem se lembra muito bem quem é.

Imp, além de escritora é pintora também, que ela considera como um hobby , o qual ela acredita que a ajuda a manter a sua sanidade metal. Imp, ainda tem uma grande fixação por um quadro intitulado de 'A Menina Submersa' o qual ela conheceu aos seus 13 anos, e de lá pra cá ela tem uma fixação,  até que meio que doentia pelo quadro. A outra fixação, anos depois foi a Eva depois que ela a conheceu.
Então, conforme a saúde da protagonista vai decaindo, nós leitores assim como a protagonista não conseguimos distinguir o que é real e o que é fantasia.
"[...] O que eu deveria fazer? Ele me afogou na água verde debaixo da ponte. Fizeram um violino do meu esterno. Fizeram cravelhas dos meus dedos. No inverno, eu me deito sob o gelo e o céu estava cinza e lembrava vidro. [...] Pág. 120
"[...] ... e agora sei que a minha história de fantasmas não é a história de fantasmas que pensei que fosse, aquela que resolvi contar. Minhas histórias mudam de forma como sereias e lobisomens. Uma licantropia de substantivos, verbos e adjetivos, sujeitos e predicados, e assim por diante." Pág. 277

Como eu disse no início da resenha, esta não é uma leitura fácil. É muito confusa, pois entramos dentro da cabeça da protagonista, que percebendo que sua doença se agrava decide registrar as suas memórias em um livro, que como dizia sua avó 'as coisas importantes devem ser anotadas'. Porém, nem tudo o que ela escreve quer dizer que  aconteceu daquela maneira, e ela deixa bem claro isso em vários trechos do livro.
Me vi a ponto de abandonar a leitura inúmeras vezes, porque é um livro difícil de gerir. Por esse motivo demorei dois meses para concluir a leitura, e neste meio tempo fui intercalando com outras leituras. É um livro que mexe com você, que te faz pensar nas pessoas portadoras da doença na vida real, e percebemos o quanto é dificil a pessoa lidar com a doença. É um livro que te faz pensar diferente, que te abre a mente e os olhos.
Apesar da narrativa ser confusa, já que acompanhamos fluxos de pensamentos de uma pessoa que sofre de esquizofrênia, a autora escreve muito bem.
Quanto a edição não preciso falar nada, não é gente? É Darkside Books. Sem nenhum erro de ortografia e uma edição mega caprichada. (Por isso que o post tá recheado de fotos rsrsrs)

Não indico este livro para qualquer pessoa, porque ele é um livro que eu posso dizer meio que 'pesado', pois além de tratar da doença propriamente dita, a esquizofrênia, ainda trata do preconceito de gêneros e outros temas que precisam de nossa atenção.
Uma coisa que eu fiquei muito curiosa foi conferir os livros e autores citados durante o livro, principalmente a real história da Chapéuzinho Vermelho e da Pequena Sereia. Alice é um livro citado, e acho que foi o destino foi o livro sorteado da TBR de Janeiro, e entendi o motivo de ter sido citado na história. (Mas isso é assunto para outro post).
Adorei a experiência, embora tenha me tirado da minha zona de conforto. E daqui a alguns anos quero reler, para que eu possa aproveitar melhor a leitura.

2 comentários

  1. Tenho muita vontade de ler esse livro pois gostei da sinopse e gostei de tudo que li da coleção DarkLove aí você vem com essa resenha tão sincera sem ser ufanista e eu fico com mais vontade ainda... Sou uma pessoa confusa e gosto de gente confusa kkkk Acho que vou gostar dessa protagonista que escreve pq acredita na necessidade de registrar o que é importante, também acredito nisso, aliás tenho blog por isso.

    Jaci
    Uma Pandora e sua Caixa

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    Respostas
    1. Que legal Jaci!Leia sim, acho que você irá gostar, quero reler em um futuro próximo pois sinto que não aproveitei como devia entende? Muito obrigada pela sua visita ;)

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